Brasil é um país cristão e conservador, diz Bolsonaro na ONU

Bolsonaro fez apelos à sua base conservadora, dizendo que o Brasil é um país cristão e denunciando o que chamou de “fobia-cristã”

Bolsonaro em vídeo conferência na ONU
Bolsonaro em vídeo conferência na ONU. Foto – Divulgação.

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, defendeu o histórico de seu governo na proteção da floresta amazônica, no encontro virtual das Nações Unidas com líderes globais na terça-feira que seu país foi erroneamente retratado como um vilão ambiental. Os críticos de Bolsonaro foram rápidos em separar suas afirmações.

Como o primeiro orador no debate geral da Assembleia Geral da ONU, de acordo com a tradição do líder brasileiro, Bolsonaro disse que o setor do agronegócio no Brasil conseguiu impulsionar as exportações agrícolas para alimentar uma população global crescente, o que o tornou um alvo.

“Somos vítimas de uma das mais brutais campanhas de desinformação sobre a Amazônia e o Pantanal”, disse Bolsonaro. “A Amazônia brasileira é conhecida por ser muito rica. Isso explica porque instituições internacionais apoiam tais campanhas baseadas em interesses ulteriores, unidas por associações brasileiras egoístas e antipatrióticas, com o objetivo de prejudicar o governo e o próprio Brasil.”

Na semana passada, um grupo de países europeus – a Amsterdam Declarations Partnership, liderada pela Alemanha – publicou uma declaração conjunta instando o Brasil a agir na Amazônia. Eles disseram que o desmatamento está tornando “cada vez mais difícil” para empresas e investidores no Brasil cumprir seus critérios ambientais, sociais e de governança.

“Ele (Bolsonaro) alegou que estavam liderando uma campanha para desacreditar seu governo, mas foi ele que erodiu sistematicamente a legislação ambiental e não aplicou penalidades para crimes ambientais”, disse Robert Muggah, do Instituto Igarapél.

“Sob sua supervisão, os desmatamentos ilegais, o desmatamento e a mineração selvagem dispararam”, disse Muggah.

Na primeira aparição de Bolsonaro na assembleia em 2019, ele deu um tom desafiador, criticando a mídia e o socialismo. Ele declarou a soberania brasileira sobre a Amazônia e denunciou o que chamou de “ambientalismo radical”.

“É o mesmo do ano passado: uma mistura de negação da realidade e auto-elogio por promover uma política ambiental que não existe”, disse Rubens Ricupero, brasileiro que foi secretário-geral da Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento para quase uma década.

Em maio, Bolsonaro encarregou o exército de proteger a floresta tropical. Dois meses depois, ele proibiu a criação de incêndios agrícolas e florestais por 120 dias, quando o país entrou na estação seca. A legislação brasileira exige licenças para incêndios para limpar arbustos e abrir terras para agricultura, pecuária ou extração de madeira, mas a exigência é amplamente ignorada.

Desmatamento

O desmatamento na região amazônica do Brasil pode ter atingido um máximo de 14 anos nos 12 meses até julho, de acordo com dados preliminares publicados no mês passado pela agência espacial do país. Os dados finais serão divulgados nos próximos meses.

Os incêndios saíram de controle no Pantanal brasileiro, o maior pântano tropical do mundo, com o número de incêndios ultrapassando 16.000 até agora em 2020 – consideravelmente mais do que qualquer ano completo registrado, desde 1998.

Bolsonaro também defendeu a resposta de seu governo à pandemia COVID-19 na frente da ONU, destacando a distribuição de dinheiro de emergência para 65 milhões de brasileiros de baixa renda e apoio financeiro para pequenas e micro empresas para mantê-los à tona em meio a uma crise econômica esmagadora.

“Parte da imprensa brasileira também politizou o vírus, disseminando o pânico entre a população sob o lema‘ Fica em casa e depois veremos a economia ’e quase trouxe o caos social para o país”, disse Bolsonaro. “Nosso governo, de forma ousada, implementou várias medidas econômicas que evitaram o mal maior.”

Muggah, de Igarapé, destacou que Bolsonaro inicialmente se opôs à ajuda à pandemia, até que percebeu como isso ajudou a impulsionar seus índices de aprovação.

Segundo Thiago de Aragão, diretor de estratégia da consultoria política Arko Advice, disse que o presidente Jair Bolsonaro. está se gabando dos resultados da tragédia em curso ao afirmar, sem evidências, que um desfecho pior foi evitado.

Desde o início da pandemia, Bolsonaro minimizou a gravidade do coronavírus, chamando-o de “uma pequena gripe”. Mesmo quando ele mesmo testou positivo para o vírus neste verão e teve que ficar em quarentena, ele às vezes adotou o fatalismo, dizendo que não há como evitar que 70% da população contraia a doença. Ele disse repetidamente que o fechamento da economia infligiria dificuldades piores à população.

E ele liderou pelo exemplo, muitas vezes fazendo passeios que atraíam uma multidão, às vezes sem usar máscara. Por meio de suas ações e retórica, ele sabotou os esforços de prefeitos e governadores para convencer as pessoas a permanecerem em quarentena.

Em seu discurso à ONU, Bolsonaro disse que a Suprema Corte determinou que os estados determinariam medidas de quarentena. Ele demitiu seu primeiro ministro da saúde por apoiar os líderes locais sobre a necessidade de amplas restrições à atividade.

O Brasil confirmou 4,6 milhões de casos de coronavírus, o terceiro maior no mundo, de acordo com a contagem compilada pela Universidade Johns Hopkins. Seu número de mortos de 137.000 fica atrás apenas dos EUA

Por fim, Bolsonaro fez apelos à sua base conservadora, dizendo que o Brasil é um país cristão e conservador, denunciando o que chamou de “fobia-cristã”.

“O discurso foi, mais uma vez, dirigido aos seus apoiantes em casa e não ao mundo”, disse Arko’s de Aragão. “Parece que a opinião do mundo importa cada vez menos para ele.”