Reformista Hassan Rohani vence eleição presidencial no Irã

Reformista Hassan Rohani vence eleição presidencial no Irã
Reformista Hassan Rohani vence eleição presidencial no Irã

Reformista Hassan Rohani vence eleição presidencial no Irã. O moderado reformista, Hassan Rohani, apoiado pelos reformistas, obteve 50,68% dos votos e será o sucessor de Mahmoud Ahmadinejad na presidência do Irã, anunciou ontem o ministro do Interior, Mostafa Mohammad Najjar. Rohani era o único na disputa que não fazia parte do campo conservador, vinculado ao líder supremo, Ali Khamenei, e obteve vantagem suficiente para encerrar as eleições já no primeiro turno.

O resultado surpreendeu iranianos e observadores estrangeiros. A vitória folgada demosntra que grande parte dos iranianos está insatisfeita com os rumos que o líder supremo e seus aliados têm imposto ao Irã. Além disso, ela aponta que os reformistas – esmagados na onda de protestos de 2009 – ainda mantêm forte influência no país persa. O triunfo de Rohani, entretanto, não significará mudanças bruscas em temas estratégicos como o polêmico programa nuclear de Teerã ou a política econômica, decididos por Khamenei.

O segundo colocado foi o prefeito de Teerã, o conservador Mohammad Baqer Qalibaf, mas ele recebeu menos de um terço dos votos de Rohani. Depois, veio o ultraconservador Saeed Jalili, com cerca de 10%. A Justiça eleitoral disse que o comparecimento na votação de sexta-feira foi de 80%.

Ex-negociador nuclear, Rohani criticou ao longo da campanha o isolamento do Irã provocado pela retórica radical de líderes como Ahmadinejad e defendeu “uma relação construtiva com o mundo”. Ele também bateu de frente com os conservadores em temas como os direitos das mulheres, prometendo criar um ministério para promover igualdade de oportunidades de trabalho.

“Tenho dificuldades em imaginar o sistema da república islâmica convivendo com um presidente Rohani. Como ele é apoiado pelos reformistas e centristas, trata-se de uma figura que em nada agrada ao líder supremo”, disse ao Estado Ali Vaez, analista de Irã no centro Crisis Group. “A oposição perdeu a rede de poder que tinha até 2009, alguns de seus líderes estão em prisão domiciliar e seus jornais acabaram fechados.”

Divisões. A república islâmica criada tem uma estrutura híbrida de poder, com duas fontes distintas de autoridade: o voto e o Islã. O presidente é escolhido nas urnas, assim como o Parlamento, mas o guardião da ordem – e responsável pelas decisões-chave do Estado – é o líder supremo, apoiado em um colegiado de clérigos. O quanto o Rohani poderá influenciar nas negociações nucleares é tema de debate entre especialistas.

Vaez afirma que o impacto do presidente no diálogo diplomático “será mínimo, porém não insignificante”. Ele afirma que o chefe eleito do Executivo consegue interferir na definição da agenda do governo, mas o conteúdo das políticas está além de seu raio de alcance, especialmente em questões estratégicas como o dossiê nuclear. “Se olharmos a história iraniana, veremos que as decisões importantes sempre foram tomadas pelo líder supremo.”

No entanto, outros especialistas consideram que o presidente tem, sim, papel determinante na política nuclear e no rumo das negociações. Mohsen Milani, da Universidade do Sul da Flórida, argumenta que a eleição de um novo chefe do Executivo altera a composição do Conselho Supremo de Segurança Nacional, o colegiado que delibera e sugere ao Khamenei linhas de ação em temas-chave.

“A chegada de um presidente ao poder, com todo seu gabinete, altera, ainda que não seja de modo decisivo, a composição do conselho e isso tem impactos importantes na forma e no conteúdo das decisões”, afirmou Milani ao Estado. “E é bom não esquecer: o líder supremo é de fato a autoridade mais importante da república islâmica; mas o presidente é a segunda mais importante.”

Segundo ele, Khamenei enviou nos últimos meses sinais de que está mais aberto a um compromisso com as potências sobre o programa atômico, ao reconhecer que as sanções estão minando a economia iraniana. Milani acredita que, com Rohani na presidência, o líder supremo poderá colocar parte da responsabilidade de um eventual compromisso internacional sobre os ombros do clérigo moderado.

Os dois analistas iranianos chamam atenção para a tendência de que o próximo presidente entre em rota de colisão com Khamenei – e isso vai além da figura de Rohani. A divisão entre o temporal e o religioso nas instituições da república islâmica cria uma tensão permanente entre o líder supremo e o eleito o poder Executivo. Essa rivalidade marcou os últimos três governos: de Akbar Hashemi Rafsanjani, Mohammad Khatami e Ahmadinejad. O presidente que está de saída, de protegido de Khamenei, tornou-se ao final um pária dentro do sistema iraniano.

Informações: Estadão

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