Ministério cristão salva crianças da fome, das doenças e da morte na Guatemala

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Ministério cristão salva crianças da fome, das doenças e da morte na Guatemala
Ministério cristão salva crianças da fome, das doenças e da morte na Guatemala

Ministério cristão salva crianças da fome, das doenças e da morte na Guatemala. Resgate dos pequeninos – Os “bebês” têm todos os tamanhos. Eles chegam ao centro de resgate pesando de 600 gramas a 15 kg. Alguns são recém-nascidos; outros têm 19 anos de idade. Tecnicamente não são todos bebês, é claro. Mas aspectos técnicos pesam muito pouco em questões de vida e morte, e o tratamento carinhoso ajuda a mitigar um pouco o sofrimento. Todas as crianças levadas para lá são indefesas e precisam de cuidados intensivos, ou podem morrer. Das 1,2 mil que foram atendidas no centro em um ano, 85 morreram. Pode parecer muito, mas trata-se de um verdadeiro milagre, ainda mais levando-se em conta o estado em que a maioria chega.

A World Help é uma organização humanitária religiosa com sede perto na Virgínia. A entidade tem parceria com ministérios do mundo todo, levando um pouco da abundância dos Estados Unidos e de outras nações ricas para comunidades carentes isoladas no meio da América Central. Um dos 100 parceiros da World Help é a Hope of Life’s Operation Baby Rescue (algo como “Operação de resgate esperança de vida do bebê”), em Zacapa, um vale fértil e plano situado próximo ao Rio Grande, no leste da Guatemala. Ali, crianças frágeis e à beira da morte recebem, pela primeira vez, um atendimento digno. O resultado disso faz jus ao nome do ministério: esperança de vida para pequenas criaturas inocentemente condenadas à morte por um dos mais pavorosos quadros sociais de que se tem notícia (ver quadro).

O ministério começou em 1987, quando um certo Carlos Vargas fez um trato com Deus. Nascido e criado na aldeia guatemalteca de Llano Verde, quando adolescente, Vargas partiu para os Estados Unidos, onde se tornou um empresário de sucesso. Porém, ele foi obrigado a voltar para sua região de origem, quando uma doença desconhecida o aleijou, ameaçando mantê-lo preso ao leito pelo resto de sua vida. Um dia, ao sentir compaixão por um mendigo idoso, Vargas lhe deu dinheiro e prometeu a Deus que, caso pudesse se levantar da cama, passaria sua vida servindo aos pobres. Tanto Deus quanto Vargas mantiveram a palavra. Ele se recuperou, e logo construiu um lar para idosos. Esse lugar tornou-se um dos primeiros edifícios de um ministério, que floresceu em um terreno de 1,2 mil hectares e hoje atende aos cidadãos mais vulneráveis da Guatemala, do berço à cadeira de rodas.
Além da unidade principal, Hope of Life atua em comunidades periféricas, apadrinhando crianças, construindo poços e casas, administrando centros de alimentação, implantando escolas e muito mais. Empresas americanas, em parceria com a World Help, fornecem produtos excedentes em uma loja improvisada, onde os moradores da aldeia fazem compras usando os bilhetes disponibilizados pela própria entidade. Equipes missionárias – que atuam toda semana – distribuem sapatos novos para moradores de aldeias vizinhas. A ambulância utilizada para transportar crianças resgatadas foi doada por uma igreja da Virgínia.

“CICLO DE MORTE”
A operação de resgate de bebês é só o início do ministério Hope of Life. “Embora essa atividade seja uma prioridade, estamos investindo no resto de suas vidas e em suas comunidades”, explica Noel Yeatts, vice-presidente da World Help. “O trabalho não termina com o resgate dos bebês. Estamos fazendo várias coisas para quebrar o ciclo de morte e desespero”.

Um dos “bebês” que chegaram há pouco tempo é Noe, de 13 anos de idade. Eles estavam acompanhados por mais seis crianças doentes e cinco membros da família – cada um carregando alguns pertences em sacolas de plástico. Eles caminharam por horas, vindo de uma aldeia remota, chegando à margem do rio El Motagua. O grupo foi atendido pelas equipes da World Help e da Hope of Life. Remadores fortes os transportaram para o outro lado, onde uma ambulância os aguardava. O pai de Noe o levou até a margem íngreme do rio em direção à ambulância. Seu rosto estava tomado por um semblante sério, e seus olhos pareciam cheios de medo. Muitos nativos da montanha Maya desconfiam dos cristãos brancos, pois acreditam que eles desejam vender as crianças no próspero cenário de tráfico humano do país.

Algumas famílias, acreditando em promessas dos xamãs para curar suas crianças doentes, testemunham a piora de seus entes queridos. Entre o medo e as promessas vazias, Noe sofreu anos seguidos com uma paralisia cerebral, além de grave desnutrição e uma pneumonia oportunista. Seu pai, finalmente, ergueu o corpo deficiente do filho e o colocou na ambulância. A equipe médica acomodou o garoto cuidadosamente em um banco, ao lado de Rosália, outra criança que havia atravessado o rio naquele dia. Vítima da síndrome de Down, ela veio envolta em cobertores, apesar do calor que fazia. Suas pernas e braços, finos como gravetos, denunciavam sua desnutrição. Percebi imediatamente que ela tinha síndrome de Down. A criança vestia apenas uma calcinha rosa; manchas brancas cobriam o resto do seu corpinho magro.

Rosália parecia não notar o barulho da sirene e nem os solavancos do carro na estrada esburacada à medida que a ambulância avançava pelo matagal, distanciando-nos daquele rio mortal e indo em direção à vida. Aos quatro anos de idade, a criança pesava apenas 6,5 kg. Já Noe, que era adolescente, não passava de 20 quilos. Durante apenas o período em que a reportagem esteve em Hope of Life, o centro recebeu 17 crianças doentes e à beira da morte. Seus males vão desde ossos frágeis a hidrocefalia. A maioria chega desnutrida. Nas semanas seguintes, algumas delas seriam levadas ao túmulo.
Rosália, Noe e outras cinco crianças que atravessaram o rio naquela tarde se juntaram a cerca de 30 crianças do centro de resgate. Entre elas está Diego, de poucos meses de vida. Quando tinha apenas alguns dias de vida, foi encontrado em um depósito de lixo, enquanto cachorros disputavam os restos de seu cordão umbilical. Diego agora é um bebê gorducho e risonho. Jenri, de dois anos, foi conduzido ao centro algumas semanas antes de minha chegada. Agora, pesa 4,5 kg, mas tinha metade disso quando chegou. Com 22 quilos, Yolanda, que tem 13 anos, é um fiapo de menina. Surda e muda, ela reluta em sorrir, mas começou a praticar timidamente com os visitantes a recém-aprendida linguagem de sinais.
Para a sorte de Yolanda e tantos outros meninos e meninas, Hope of Life abriu um centro para crianças com necessidades especiais. Um membro do Conselho da organização, cuja filha morreu de câncer há pouco tempo, doou o dinheiro para a construção do complexo. Quando o estado de Yolanda se estabilizar, o centro se tornará sua casa permanente. Outras crianças trazidas voltarão para suas famílias quando melhorarem. Muitos pais e responsáveis ficam em casas temporárias, perto do centro de resgate, enquanto seus filhos recebem tratamento. Já aquelas que são vítimas de abandono, negligência ou abuso são levadas ao orfanato do ministério. Uma escola com capacidade para 500 alunos atende a todos os órfãos de graça. Cerca de metade dos alunos vêm de famílias que podem pagar mensalidades. Isso traz duas vantagens: a escola se sustenta e a socialização diária de crianças ricas e pobres ajuda a diminuir a disparidade social, que é uma das características da Guatemala, país classificado como um dos piores em termos de desigualdade de renda.

A Hope of Life mantém seu lugar de origem com a renda proveniente de suas estufas e de sua criação de tilápias, que produz mais de 400 toneladas anualmente, pescado vendido nos mercados locais. O movimentado campus emprega cerca de 400 pessoas, uma contribuição significativa em um país de extrema pobreza Mas essa é uma fração dos esforços da Hope of Life. Na verdade, diz Vargas, 90% da força de trabalho e dos recursos são empregados fora da base por meio de projetos como o Total Village Transformation, que constrói para as comunidades um poço, uma igreja e uma escola. “Quando dizemos ‘Deus te ama’, não são apenas palavras – é amor em ação”, diz Sal Vargas, que ajuda o irmão a administrar a organização.

CAMINHO PARA O CÉU
Um dos maiores problemas de Hope of Life, que é a falta de leitos no Hospital São Lucas, que atende pacientes da região, está para ser resolvido. A unidade está sendo ampliada e equipada pela entidade, em parceria com a World Help, com a adição de seis andares e a instalação de um heliporto no topo. Em breve, o hospital estará capacitado a atender as necessidades das crianças que vêm para o centro de resgate de bebês e também de muitos pacientes com condições de pagar. Grande parte do equipamento médico foi fornecido através de um programa dos Estados Unidos, que permite que organizações como a World Help reivindiquem excedentes militares não utilizados.
Quando o hospital estiver aberto, crianças como Lady e Alicia poderão ter esperanças. Elas são alunas da instituição. As duas irmãs, de nove e dez anos de idade, têm o cabelo preto, grosso e brilhante e a pele morena. Mas quando foram trazidas ao centro, há cinco anos, vindas de um vilarejo remoto, eram pele e osso. Haviam sido abandonadas pelos pais e deixadas sob os cuidados da avó, que as amarravam à cama com cordas quando saía para trabalhar. Hoje, as crianças sorriem alegres ao brincar com os outros órfãos. Elas frequentam a escola da organização, que também cobrirá as mensalidades da faculdade, caso elas desejem continuar os estudos. Para crianças que hoje vivem como elas viviam no passado, sem recursos, sem carinho e sem qualquer perspectiva além de uma existência curta de padecimentos, Hope of Life é um caminho para o céu – que pode, muito bem, começar aqui e agora. (Tradução: Julia Ramalho)

Nação faminta
Durante séculos, colonizadores, ditadores, conflitos étnicos, governos corruptos, desastres naturais e guerras civis transformaram a Guatemala no que ela é hoje – uma das nações mais pobres do Ocidente. De acordo com um relatório divulgado em novembro de 2012 pelo Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas, cerca de 40% da população indígena do país – descendentes, em sua maioria, do povo maia –vivem em extrema pobreza. Metade das crianças com menos de cinco anos de idade sofrem de desnutrição crônica, e essa taxa aumenta para mais de 70% por cento entre aqueles que vivem nas montanhas e em aldeias rurais. Segundo a ONU, a atual situação alimentar do país é classificada como “extremamente séria”. Em 2009, a escassez de alimentos fez com que o governo guatemalteco decretasse estado de emergência nacional.
Os pais estão tão acostumados a crianças pequenas e magras que os sinais óbvios de desnutrição passam despercebidos por um longo tempo. Especialistas citam a desnutrição como a causa de um crescimento significativamente retardado entre muitas crianças. Metade da população da Guatemala é atrofiada, e nas aldeias remotas o nanismo atinge 80% das pessoas. Além da mera sobrevivência, a desnutrição tem efeitos a longo prazo e de longo alcance. Sem nutrientes durante as primeiras fases do desenvolvimento, tanto o corpo quanto o cérebro não podem se desenvolver adequadamente. Especialistas preveem gerações de adultos com menor probabilidade de atingir altos níveis de educação ou empreendedorismo, mesmo quando tais oportunidades estiverem disponíveis.

Karen Swallow Prior é escritora e chefe do Departamento de Inglês e Línguas Modernas na Liberty University

Revista Cristianismo Hoje

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