Pastor marido da pastora Renee, agredida brutalmente no RJ perdoa agressor

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Pastor marido da pastora Renee, agredida brutalmente no RJ perdoa agressor
Pastor marido da pastora Renee, agredida brutalmente no RJ perdoa agressor

Pastor marido da pastora Renee, agredida brutalmente no RJ perdoa agressor. A pastora Renee Murdoch abre ligeiramente os olhos e sorri de maneira débil ao balbuciar uma saudação. “Deus o abençoe”, diz ao repórter, antes de adormecer novamente, com a cabeça enfaixada e o olhar cansado. Ela passara as quatro semanas anteriores em um leito de hospital na Zona Sul do Rio.

Pastora americana agredida no Rio de Janeiro sai do hospital

Nos primeiros dias, ficou entre a vida e a morte, sendo submetida a cirurgias e tratamentos intensivos. Agredida violentamente por um morador de rua quando fazia sua caminhada na praia, em plena luz do dia, no último dia 26 de outubro, Renee tornou-se mais uma vítima da violência urbana, flagelo que atormenta os brasileiros, os turistas e os estrangeiros aqui residentes – caso dela própria, cidadã americana que escolheu viver no Rio há 13 anos ao lado do marido, Philip, brasileiro e também com cidadania nos Estados Unidos.

Ele atendeu CRISTIANISMO HOJE com exclusividade para falar do episódio e de todos seus desdobramentos emocionais, familiares e espirituais. Atencioso, Philip demonstra muita calma e equilíbrio, mesmo ainda sob o impacto do incidente que, por pouco, não o deixou viúvo.  “Estamos presenciando um milagre”, começou, apontando para Renee. “Deus preservou a vida dela”. No intervalo de 35 minutos entre um e outro procedimento da enfermagem, o pastor esbanjou fé e um impressionante sentimento de paz. Não demonstrou qualquer rancor em relação ao agressor, a quem diz já ter perdoado, ou sinal de revolta contra Deus pelo que aconteceu. E fez questão de dizer que tem certeza do propósito divino em tudo. “Não tenho dúvidas de que o nome do Senhor tem sido glorificado”, afirma.

Ainda sem a certeza de que os repetidos golpes que Renee levou na cabeça deixarão ou não alguma sequela permanente, Philip já está convicto de algumas coisas. Uma delas é de que a repercussão do caso, no Brasil e no exterior, serviu como poderoso testemunho. “Estou ainda mais consciente do poder da oração”, frisa. Além disso, ele viu no episódio uma oportunidade para que milhares de pessoas, cristãs ou não, pudessem ter um vislumbre concreto do amor de Deus, “aquele que vai além de toda e qualquer circunstância”. Líder da Igreja Luz às Nações, com congregações no Rio e na vizinha cidade de Niterói, o pastor, de 44 anos, espera logo retomar a rotina familiar e espiritual ao lado de Renee e dos quatro filhos: “Não pretendemos mudar nada. Sabemos que Deus nos colocou aqui para este ministério.”

CH – Não dá para começar a entrevista sem uma pergunta inevitável. Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas?

PHILIP MURDOCH – Excelente pergunta. Acho que por várias razões; mas, basicamente, podemos dizer que pessoas boas não são isentas de problemas. O sol e a chuva vêm sobre os bons e os ruins. No caso específico da Renee, eu acho que foi uma daquelas coisas malucas que podem acontecer em qualquer lugar do mundo, seja no Rio ou em Nova York. Um morador de rua, com distúrbio mental, deu uma loucura e resolveu bater na cabeça dela sem motivo.

Correu uma versão de que a pastora havia repreendido o agressor por depredar um quiosque da orla, e que isso teria motivado sua fúria. Ela consegue se lembrar disso?

Ela não consegue se lembrar. Mas, pelo que eu conheço da Renee, ela não faria isso. Ela estava ali apenas para caminhar. E eu acho que o rapaz parou de depredar o quiosque antes de bater nela, ou seja, houve um intervalo. Mais tarde, conversei com um flanelinha e um orientador de tráfego que a socorreram no primeiro momento. Eles disseram ter visto o cara parar de quebrar o quiosque e sair andando na direção de Renee, na ciclovia, e ali começou a bater na cabeça dela.

Como o senhor reagiu ao receber a notícia?

Sou muito otimista por natureza, e achei que havia grande possibilidade de a vítima do crime não ser ela. Eu estava em casa e recebi o telefonema de um guarda municipal. Quando Renee já estava caída, o flanelinha mostrou ao guarda o carro dela estacionado na calçada. O agente então pegou a chave, foi ao carro e encontrou os documentos do veículo em nome da nossa igreja, e também alguns folhetos. Diligentemente, ele ligou para a igreja, e o pessoal lá forneceu o meu telefone. Esse guarda municipal, o pessoal dos bombeiros e os socorristas que prestaram o primeiro atendimento foram ótimos. Os médicos do [hospital] Miguel Couto, sem dúvida, fizeram um trabalho exemplar. Eles salvaram a vida da minha esposa, graças a Deus!

E quais são os prognósticos de Renee neste momento?

Todos os médicos estão até com medo de falar alguma coisa, porque as estatísticas são muito horríveis. Mas ela, nos primeiros 15 dias, venceu todas as estatísticas de casos como o dela, que têm alto índice de letalidade, da ordem de 60% nos primeiros dias após o trauma. E ela já está quase superando o que era esperado para os próximos seis meses. Os médicos dizem que ela está numa curva ascendente de recuperação que os deixa surpresos. Em termos motores, ela está bem; está fazendo fisioterapia e recuperando a coordenação. Há um problema oftalmológico em um dos olhos, já que o nervo ótico foi distendido. Esse é outro aspecto no qual precisaremos de um milagre. Mas ela está consciente, está falando e vemos melhoras a cada dia. Somos muito gratos a Deus por isso.

De que maneira seus filhos reagiram ao ocorrido?

Nós temos uma cultura na nossa casa: a de sermos muito honestos uns com os outros, e isso em relação a tudo. Isso gera a necessidade de cada um se comportar com honestidade. Então, nossos filhos foram acostumados desde cedo a falar e a ouvir a verdade. Desde o início, eles sabem de tudo o que aconteceu, e têm se comportado de maneira exemplar, o que me deixa muito orgulhoso. Eles vêm aqui todos os dias ver a mãe.

Como ficou a rotina da família durante a internação de Renee?

Bem, a minha rotina tem sido aqui no hospital, há quase 500 horas, com pequenos intervalos para resolver alguma coisa em casa ou na igreja [N.da Redação: A entrevista foi concedida alguns dias antes de Renee receber alta]. Mas as crianças não pararam de frequentar a escola ou as outras atividades, como cursos etc. Durante o período de internação, eles ficaram na casa dos meus pais, que é bem perto da nossa.

Vocês pretendem continuar fazendo as mesmas coisas que antes da agressão?

Olha, nossa intenção é voltar a fazer tudo o que fazíamos antes do incidente, sim. Eu sinto que a gente estava no centro da vontade de Deus, e não há o que mudar. O que aconteceu não foi por causa de um redirecionamento de Deus; na verdade, tudo veio até confirmar o que a gente estava fazendo. Todos os anos, nós vamos aos Estados Unidos participar de uma conferência em fevereiro, e eu pretendo ir, se o estado da Renee o permitir.

Quando as câmeras e microfones são desligados e o senhor se acha sozinho, sua atitude de calma e autocontrole é a mesma?

Naturalmente, eu tive momentos de crise e de muito choro, principalmente nas primeiras semanas. O primeiro culto na igreja sem ela foi uma crise emocional. A mídia até me perguntou sobre isso. Os repórteres fizeram perguntas provocando o meu lado emocional. Eu não tenho nenhum problema em chorar, mas não quero chorar de propósito só para dar ibope [risos]. Entendo que só me mantive de pé pela paz que Deus dá e também pelo meu jeito de ser. Sou muito confiante, embora, em nenhum momento, eu possa ter a certeza de que Renee vai se recuperar por completo, e nem quando isso vai acontecer. Mas o mais difícil a gente já passou: ela está viva. O que eu sinto no coração é um sentimento de muita gratidão a Deus pela vida dela, por como ela tem sido uma esposa exemplar nestes nossos 18 anos de casamento. Eu me sinto mais apaixonado por ela agora do que em todos os outros anos de minha vida, e feliz pelo privilégio de estar aqui e de poder ajudá-la neste momento.

Se tudo o que o senhor e sua esposa fazem no ministério é da vontade de Deus, e sua presença no Brasil atende a um chamado divino, como o senhor diz, o incidente não foi uma injustiça da parte de Deus? Ele não poderia muito bem ter impedido o crime?

É lógico que ele poderia ter impedido. Eu não tenho a pretensão de me comparar a ninguém, mas muitos personagens bíblicos passaram por enormes dificuldades, e em nenhum momento atribuíram isso a uma possível maldade de Deus. José sofreu demais, mas no capítulo 50 de Gênesis o vemos dizendo que aquilo que foi intencionado para o mal acabou sendo usado por Deus para salvar muitas vidas. Portanto, talvez a gente esteja vendo o iniciozinho de algo muito bom e grande acontecendo a partir de um acontecimento muito ruim. O interesse despertado pelo nosso caso junto a pessoas de todo tipo de crença – evangélicos, católicos, pessoas sem religião – tem sido enorme. Todos dizem que estão orando, rezando, mandando energias… Mensagens desse tipo chegaram e têm chegado às centenas. Então, creio que Deus, embora, sem dúvida, pudesse ter impedido isso, vai usar – e está usando – esse incidente para abençoar muitas pessoas e ensinar-lhes algo sobre a fé. Desde que Renee foi internada, eu fiz alguns vídeos, em português e inglês, para que as pessoas daqui e dos Estados Unidos, inclusive a família dela lá, pudessem acompanhar tudo pela internet. Isso levou a uma grande campanha de oração. Como tenho contatos muito bons em diversos países, irmãos de vários lugares ao redor do mundo, inclusive pastores amigos, também estão orando.

Na sua opinião, a oração muda mesmo as coisas?

Eu não tenho a menor dúvida de que a oração não é algo que apenas faz com que nos sintamos melhor. Existe uma perspectiva de que a oração, na verdade, não é algo significativo. Muita gente, depois de ter tentado resolver o problema de todas as maneiras, diz: “Agora, vamos fazer uma oraçãozinha, já que nossos esforços não tiveram sucesso”. Não é legítimo que a oração seja somente um último recurso. Oração é algo mais poderoso do que todas as outras coisas. As circunstâncias que salvaram a vida da Renee são decorrência da ação de um Deus misericordioso e das milhares de pessoas que oraram por nós.

Foram tantas pessoas assim?

Diariamente, eu recebia dezenas, centenas de mensagens de pessoas que diziam estar orando por um milagre na vida de minha esposa. Sem dúvida, a publicidade do caso colaborou para que milhares de pessoas, conhecidas ou não, estivessem orando. Houve aquela coisa da identificação – a pessoa vê o caso na televisão e pensa que algo do tipo pode acontecer a qualquer um. Mas creio que foi um fator espiritual que uniu as pessoas em oração. Muita gente quis participar da recuperação de Renee através da oração, e isso desencadeou uma série de eventos que se tornariam um grande milagre. E, talvez, Deus queira mostrar algo muito grande às pessoas, mesmo àquelas que não creem como nós e dizem estar mandando “energias positivas” para nós. Quem sabe se Deus use uma faísca disso para mostrar a elas o autor da verdadeira energia, que é o Senhor Jesus Cristo?

Para muitas pessoas que acompanham o caso, será mais fácil acreditar que a recuperação foi fruto de um processo natural.

Não tenho dúvida nenhuma de que o fato de ela estar viva e melhorando é um milagre. No início, Renee tinha 60% de chances de morrer e quase noventa por cento de possibilidade de ficar com sequelas significativas. Havia uma janela estreita de possibilidade de sobrevivência e de recuperação completa. Mas é claro que muitas pessoas vão pensar que tudo foi natural, que ela entrou nessa janela estatística por acaso. Quem pensa assim tem uma anti-fé: acho que é mais difícil pensar desse modo do que crer que Deus agiu.

Alexandre, o agressor de Renee, está preso e será entregue à Justiça. Ainda que fique comprovado que tem distúrbios mentais, ele será processado por tentativa de homicídio. O que o senhor gostaria que se fizesse com ele?

É uma coisa muito difícil. Ele não fez isso porque queria roubar nada. Certamente, esse rapaz tem algum distúrbio mental e espiritual também. Eu não falei com ele, mas ouvi relatos de que este não é o primeiro caso policial em que se envolveu. Ele estava depredando o quiosque; então, poderia ter sido impedido e mesmo detido antes de atacar a Renee, mas isso não aconteceu, o que é uma lástima. Por mim, acho que ele deveria ser confinado em um lugar onde possa ser ajudado, recuperado. Soube que ele foi encaminhado para um presídio comum, que é um lugar terrível para uma pessoa com esse tipo de problemas. Eu orei por ele, e espero que a Justiça brasileira consiga remediar isso da maneira correta. O certo é que ele não deveria estar nas ruas, mas sim internado em alguma instituição própria.

 

Gostaria de encontrá-lo?

Não sei… É cedo. Meu foco agora é ver a Renee melhor.

 

O senhor será capaz de perdoá-lo de todo coração?

Já perdoei. Quem sou eu para não perdoar? Ele gerou um transtorno muito grande na nossa vida, mas já está perdoado desde o primeiro dia. Para mim, foi mais fácil perdoar alguém com distúrbio mental do que se a Renne fosse agredida por um ladrão que quisesse levar 5 reais dela. Desculpe-me por ser tão espiritual, mas não foi difícil para mim perdoar.

 

Essa história cristã do perdão não deixa um ônus exagerado sobre o crente? Mesmo em casos como o de sua mulher, em que o crente é inocente e não fez absolutamente nada para sofrer o dano, a responsabilidade do perdão fica com ele, e se não perdoar está errado perante Deus…

Olha, eu acho que perdoar é uma lição de vida, que nos lembra o tempo todo o que Jesus fez por nós. Por maior que seja o mal que perdoamos a alguém, sempre será muito menor do que aquilo que foi feito contra Jesus – sendo que quem merecia aquele mal todo éramos nós. É difícil perdoar em certas circunstâncias, sem dúvida. Às vezes, é preciso um milagre para transformar as coisas em nosso coração antes que sejamos capazes de perdoar. Mas é preciso levar com conta que qualquer sofrimento que estejamos passando é muito menos intenso do que o que Deus experimentou, enviando seu Filho Jesus, perfeito, totalmente inocente, para sofrer horrivelmente por causa de nós. Isso é o verdadeiro exemplo de perdão, que devemos buscar para nossas vidas.

Há quanto tempo o senhor é pastor?

Somos pastores titulares na Igreja Luz às Nações há doze anos. Eu fui ordenado pastor há 18 anos e trabalho também em outras vertentes ministeriais. Uma delas é a publicação de livros. Temos uma editora com vários livros escritos, inclusive sobre casamento [Antes que o casamento nos separe e Quase tudo sobre sexo, namoro e casamento, da Editora Luz às Nações]. Eu amo o casamento, acho que casamentos são os tijolos da sociedade. É um privilégio estar casado e poder demonstrar o que é um compromisso diante das adversidades.

Além disso, o senhor desenvolve outros ministérios?

Outro trabalho nosso é o Projeto 153, de plantação de igrejas. O Brasil é um país conhecido no exterior por sua desigualdade social. Aqui temos favelas ao lado de condomínios de alto luxo. Porém, há uma forma de desigualdade muito maior do que as diferenças socioeconômicas, que é a desigualdade espiritual. Temos cidades como Rio, São Paulo, Brasília, Manaus ou Belo Horizonte com grandes igrejas e ministérios evangélicos. Mas, de acordo com dados do IBGE, cerca de 6 milhões de brasileiros moram em municípios com menos de 3% de evangélicos. Eu já fui a muitos deles. A presença evangélica ali é tão insignificante que, se você perguntar onde tem uma igreja, o pessoal não sabe responder. Então, nós pegamos os dados dessas cidades com pequena presença evangélica e cruzamos com as estatísticas demográficas do IBGE que mostram os municípios brasileiros com menos de 10 mil habitantes. Encontramos, assim, 153 cidades, a grande maioria no Nordeste. Nós realizamos movimentos evangelísticos e implantação de igrejas lá, ou enviando missionários daqui ou, o que é ainda melhor, trabalhando com parceiros da própria região. Temos igrejas Luz às Nações com missionários enviados daqui em duas cidades, Itabaiana (SE) e Garanhuns (PE).

Em cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo, com enorme presença evangélica, a ação da Igreja não está se fazendo sentir na sociedade. A criminalidade é uma das evidências disso. Como se pode falar em avivamento nessas circunstâncias?

Uma das chaves para se alcançar uma cidade é a unidade entre os pastores e igrejas dali. Existe uma aparência de avivamento por causa das estatísticas religiosas. Mas o que temos aqui é uma cultura evangelizada, e não uma cultura evangélica. No Rio de Janeiro, existe desunidade entre as igrejas e os líderes, e isso é um fator prejudicial à obra de Deus. O Rio é chamado de vitrine do Brasil, o lugar onde as coisas acontecem primeiro. Precisamos trabalhar muito para gerar ambientes em que essa unidade possa crescer naturalmente.

Entrevista concedida para Revista Cristianismo Hoje em 31/12/2012

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