Igreja gay será inaugurada na cidade de Bauru -SP

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Igreja Inclusiva Monte da Adoração
Igreja gay será inaugurada na cidade de Bauru -SP

Reverendo gay e pastora hetero inauguram, com culto tradicional, a Igreja Gay Monte da Adoração
A parábola do Filho Pródigo foi escolhida para a inauguração neste domingo (22) à noite da primeira igreja Gay de Bauru, a Monte da Adoração, localizada no Jardim Bela Vista.

Conduzida por uma pastora heterossexual e um reverendo gay, a igreja mescla famílias tradicionais com fiéis homossexuais. Segundo a pastora e o reverendo, 30% dos 50 frequentadores são gays e encontrarão no templo uma forma de exercer sua religiosidade sem repressão por causa da orientação sexual.

O reverendo Aloisio Pereira da Silva Júnior, 28, um ex-seminarista que frequentou a Igreja Católica durante 15 anos, chama de filhos os frequentadores da igreja que acaba de criar. Como na parábola que será lida na inauguração, quer recebê-los com uma ceia, acolhê-los e pregar uma vida na santidade, o que considera ser possível inclusive entre as pessoas que vivem uma relação com outras do mesmo sexo.

A pastora Cristina Gonçalves, 54, é dissidente de uma igreja evangélica tradicional e diz conhecer a dor dos homossexuais não aceitos quando assumem sua condição nas comunidades religiosas. Ela tentou trabalhar com gays na igreja à qual pertencia e recebeu críticas. Também já orou em prostíbulos e boates e percebeu a necessidade de religião.

“São pessoas que têm sede, gostariam de estar numa igreja”, afirma. O primeiro culto da Igreja Inclusiva Monte de Adoração está marcado para amanhã, às 19h30, dia e horário que serão mantidos para os encontros semanais no templo, instalado num salão comercial alugado. Será uma igreja pentecostal, mas o reverendo Júnior afirma que adotará uma linguagem mais solene.

“Vai ter alegria, os dons de língua, porém vamos seguir um pouco mais de ordem”, diz. Pentecostal, mas com “tempero” ortodoxo. Existem outras comunidades gays religiosas em Bauru. A diferença da Monte de Adoração é que ali serão realizados todos os rituais tradicionais, como batismo e casamento.

Militância /O reverendo Júnior batalha há anos para criar sua própria igreja. Militante da ABD (Associação Bauru pela Diversidade), ele costuma frequentar as paradas e outras manifestações com panfletos religiosos e a tentativa de mostrar aos homossexuais que é possível “viver em santidade” e com respeito ao parceiro ou parceira escolhidos.

Conta que teve participação ativa na Renovação Carismática da Igreja Católica, mas foi “convidado” a se afastar quando sua relação amorosa com um homem foi descoberta. “Nosso objetivo maior é o evangelismo”, diz sobre a igreja que criou.

A tendência é de crescimento no setor
Há dez anos, havia apenas uma igreja inclusiva no Brasil. Hoje são cerca de 40, principalmente no eixo Rio-São Paulo. A maior parte dos fiéis é formada por homens

10.000 é o número estimado de frequentadores de igrejas inclusivas no Brasil

Igrejas não fazem restrições ao público
As igrejas inclusivas são abertas a todo tipo de frequentador e têm como característica a tolerância às orientações sexuais, ao contrário do que acontece nas conservadoras

Bispo garante que gays não são excluídos
O bispo de Bauru, Dom Caetano Ferrari, afirma que a Igreja Católica considera todas as pessoas batizadas com a mesma dignidade, independente das diferenças. “São todos filhos e filhas de Deus, irmãos e irmãs. Não há nenhuma repressão sexual contra quem quer que seja”, garante.

Ele diz que, no mundo pluralista e democrático em que vivemos, é preciso respeitar a decisão de abrir uma igreja, “mas sempre com a aprovação oficial do Estado e o respeito às leis do país”. O religioso, no entanto, tem suas ressalvas à decisão.

“Do ponto de vista da fé católica, não vejo necessidade da abertura de uma igreja inclusiva para os homossexuais, porque estes fiéis não estão excluídos da igreja. Ao contrário, desde o seu batismo, pertencem a ela na plenitude de direitos e obrigações como cidadãos católicos”, diz.

Dom Caetano prega a castidade como dever de todos os fiéis, tanto os casados como os solteiros. Os primeiros na castidade conjugal e os segundos na castidade de continência. Questionado sobre a obediência dos católicos a esse princípio, ele afirma que toda virtude exige empenho e esforço, como ser honesto, justo e também casto.

“A castidade é a positiva integração da sexualidade na pessoa. Exige disciplina. Ela é, por isso, uma virtude moral, um dom de Deus, uma graça, um fruto do Espírito, que conta, porém, com o esforço pessoal”, explica. “Ser verdadeiramente humano bem integrado, adulto, dono de si mesmo, enfim, ser santo é uma luta, de fato, não é para fracos”.

Pastor afirma que não existe gene gay

Para o presidente do Conselho de Pastores Evangélicos de Bauru, Ubirajara Cássio Sanches, não há nenhuma igreja excludente. Ao mesmo tempo, deixa claro que as tradicionais não aceitam “o que sempre foi contra Deus”. De acordo com ele, quando há algum homossexual a tendência é entender que não se trata de comportamento de nascença e sim fruto do meio ou desvio. “A ciência não comprova a existente de gene gay”, diz.

O pastor cita como exemplo um casal acolhido. O homem tem desejos homossexuais, que acredita serem consequência de situações vividas na infância. “Procuramos ajudar. Abraçar, não excluir”. Diz ainda que biblicamente não há nenhum respaldo para uma igreja gay. Compara isso à criação de uma igreja de feiticeiras, por exemplo.

O pastor garante que não haverá retaliações. “Não posso deixar de pregar contra a mentira, a corrupção, a homossexualidade e a pedofilia”, acrescenta.  “Amamos o pecador, queremos incluí-lo, mas não podemos fazer vista grossa ao que a bíblia condena”.

*Diadia