Os novos evangelistas

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O panorama da evangelização mundial tem mudado. Antes limitados a cultos dentro de suas igrejas e nas praças de bairros, hoje os crentes buscam formas diferenciadas para falar de Jesus.

 Antenados com a moderna ênfase no tema do Crescimento da Igreja e suas técnicas para alcançar alvos, existem pastores, grupos, denominações e pessoas independentes coordenando atividades evangelísticas que resultam em muitas vidas ganhas para Jesus por meio de linguagens bem inovadoras.
Recursos dos mais variados são usados para atrair a atenção do público, mostrando como esse avanço é o que se poderia chamar de descentralização evangelística, que redundou na multiplicidade de opções para o cumprimento da missão.

Se no passado tudo girava em torno do pastor ou de um evangelista que “arrebanhava milhões de pessoas” e que brilhava como uma estrela solitária realizando campanhas, agora existem vários métodos adaptáveis às diversas regiões, idades e circunstâncias. Além de produzirem multidões de convertidos, esses métodos facilitam um maior envolvimento do crente no trabalho, já que ele usa uma aptidão natural para sua execução.

Os “evangelistas-estrelas” não são uma espécie em extinção. Mas aquele que não se acha capaz de falar às multidões pode explorar um dom que possua e talvez nem tenha percebido. Os novos evangelistas estão aí, às vezes pouco conhecidos da grande massa, mas prontamente dispostos a exercerem seu chamado – de ser luz em meio às trevas.

Sal da terra com tecnologia, humor…

“Jesus não foi apenas um exímio comunicador. Ele sempre soube aproveitar oportunidades de exercer influência. A pobreza que caracteriza parte da mídia evangélica mostra que ainda não sabemos usar adequadamente a inspiração fornecida pelo Senhor.” Com essas palavras, o jornalista Sérgio Pavarini justifica por que tem usado a internet para promover reflexão e mostrar a Verdade.

O paulista Sérgio envia semanalmente uma newsletter para uma extensa lista de e-mails, possui um blog e em breve vai lançar um site.

Criterioso em seu planejamento profissional, Sérgio não o é menos com sua missão cristã. Escolheu a internet por ser o meio mais rápido, fácil e barato de estabelecer contatos e transmitir informações. “Enquanto uma parcela da igreja ainda reclama do meio virtual, ele tem sido para mim fonte de sustento e plataforma para o exercício do sacerdócio das letras. Amo o que faço!”, falou o jornalista.

Seu objetivo maior é levar pessoas a refletir. “Penso que a análise crítica é um item escasso no meio do rebanho. Em resultado disso, temos uma igreja que cresce a cada dia, porém é imatura e irrelevante em vários aspectos. Sei que esse quadro aos poucos será transformado. Participar desse movimento de mudança me move a trabalhar com afinco, é um desafio e um privilégio”.

Sérgio Pavarini é colunista do Jornal Palavra. Somando todos os trabalhos que desenvolve ou participa, ele alcança mensalmente centenas de milhares de pessoas. É líder da Usina de Sonhos, grupo da Igreja de Nova Vida de São Paulo que une teatro, dança e coral. Freqüentemente, ministra palestras sobre artes e temas afins.

Outro que usa a internet para “fazer a diferença” é o professor Bruno Faé. Membro da Igreja Batista da Glória, ele dedica parte do dia ao seu blog. Começou há dois anos, publicando textos no boletim da igreja, e só depois passou para o blog. Nele, Bruno faz o que mais gosta: tirar as pessoas da zona de conforto, fazê-las pensar. “Meu público não é definido, falo tanto para os da Igreja quanto para os de fora. Por isso, uso uma linguagem simples, evitando o ‘evangeliquês’, abusando de metáforas e ilustrações”.

Para quem é membro, Bruno escreve sobre a verdadeira missão da Igreja, comparando-a a um grande hospital. Nele, os pacientes chegam com doenças espirituais, são tratados pelo doutor Cristo e cuidadas por enfermeiros que já foram doentes. Todos os que se curam ficam no hospital para ajudar os próximos que chegam. Os tratamentos podem ser encontrados num livro chamado Bíblia.

Para os que são de fora, escreve sobre o amor de Cristo. “Fiz isso uma vez comparando-o com Steve Irwin, o Caçador de Crocodilos, falecido no ano passado. Mostrei que, assim como ele tinha como missão proteger os animais e foi morto por um deles, Jesus tinha como missão salvar os homens e foi morto por vários deles. Gosto muito de usar temas e notícias atuais”.

O alvo do evangelista é o público jovem. “O ministério para o qual Deus me chamou é o ensino. Percebo que o jovem não quer apenas orientação sobre o que fazer; ele quer algumas explicações. Por isso, eu uso como argumento textos bíblicos e a razão”. Em sua atividade profissional, Bruno tenta sempre lançar uma questão ética, moral ou religiosa aos alunos. “E há muita oportunidade para isso, pois ensino numa escola confessional e, além disso, a adolescência é uma fase cheia de conflitos e transições. Por trás da rebeldia, há muita curiosidade e dúvidas”.

Comediante nato, o pastor Dalberto Vicente Monteiro há 14 anos evangeliza crianças por meio de fantoches. Faz isso em escolas, igrejas, orfanatos, festas de aniversário e eventos diversos. Suas apresentações contêm palestras, histórias morais e bíblicas. Clássicos infantis como a Branca de Neve, Cinderela e outros ganham uma versão totalmente diferenciada para as crianças, assim apresentadas ao amor de Jesus.

Dalberto se achava muito tímido e com baixa auto-estima. “O ministério que Deus me deu mudou totalmente o meu modo de ser, que antes era limitado em minhas fragilidades emocionais. Hoje, sinto-me tratado por Cristo, e a cada dia mais capacitado para esta obra”.

O pastor apresenta um programa infantil numa rádio evangélica, ministra aula em uma escola particular e oferece oficinas em vários lugares, treinando pessoas na arte de manipular marionetes. Além disso, faz palestras animadas e ainda tem tempo para cuidar da família e da Igreja Batista em Jardim América, onde é pastor titular.

Em sua opinião, a apresentação mais emocionante que fez foi numa igreja católica, no interior do Estado. “No evento tinha mais de 300 crianças e, ao final, junto com muitas delas as ‘tias’ daquela igreja aceitaram Jesus como Salvador. Essa é a minha maior motivação: ver crianças e adultos se rendendo ao poder transformador de Jesus”.

Dalberto tem contagiado muitas pessoas com sua arte. “Tenho a alegria de ver outros colegas pastores também desenvolvendo esta ferramenta para usar em seus ministérios, deixando de lado aquele leve preconceito de que pastor não poderia fazer coisas desse tipo”.

Com teatro, dança…

A criatividade não tem limites para quem decide falar de Jesus de forma diferenciada. O teatro é a paixão de Sérgio Amaral, da Igreja Metodista em Itapuã. Autor e diretor de peças teatrais e líder da Companhia de Teatro Evangélico Salvart, há 20 anos dedica-se a essa missão. “O Advogado do Diabo” é o nome da peça teatral mais conhecida
montada pela Companhia. “O roteiro conta a história de um jovem chamado Paulo, que é bem-sucedido profissionalmente e educado em uma família cristã. Sua história de sucesso sofre uma reviravolta quando ele se vê envolvido num crime bárbaro. Para escapar da prisão, faz uma opção contrária aos seus princípios cristãos e se torna prisioneiro de uma trama diabólica e perigosa”.

Para Sérgio, os temas das peças que produz retratam a realidade. “Para falar a um maior número possível de pessoas, encenamos em praças, igrejas e locais alternativos”. Ao final de cada apresentação oramos pelo público e falamos do amor de Deus. A peça “O Advogado do Diabo” estreou em 2005 no Teatro Municipal de

Vila Velha e contou com casa cheia todos os dias. Está prevista uma nova temporada da peça nos dois últimos finais de semana de julho. Em novembro será a vez de uma nova peça: “No céu sem Deus”.

Vivian Lazzerini é bailarina e coreógrafa por formação. Há 36 anos dedica-se à dança, mas desde 2001 assumiu que a dança verdadeira é para adoração. O Ministério Viviam Lazzerini conta com grande equipe de bailarinos e ministra cursos sobre adoração com dança em todo o país. “Mais do que técnica, o dançarino tem que alcançar o motivo da dança: adorar e glorificar a Deus sobre todas as coisas, ter humildade, entender que a dança é uma forma de demonstrar amor e felicidade para com Deus, com o objetivo de ganhar vidas e edificar pessoas”.

Assim como na Bíblia vê-se o exemplo de Miriã e Davi, que dançaram por gratidão a Deus, ela acredita ser possível que pessoas se convertam por meio da dança. O Ministério de Vivian agora se prepara para grandes desafios. A bailarina vai dar seminários em igrejas evangélicas de Washington e Nova Iorque este mês. Para a bailarina, as igrejas brasileiras precisam investir na dança como ministério.

Com um lápis, papel e muita criatividade, há 30 anos a desenhista e diretora de arte Márcia Macedo d´Haese encanta crianças e adultos com seu trabalho, que une mídia e literatura. Como desenhista, desenvolveu muitos personagens e hoje atua com a turminha Mig & Meg. Em sua editora, a ARCO – Arte e Comunicação, elabora uma linha de produção e estabelece metas diariamente. A principal delas é transmitir o amor de Deus.

“Vejo tantos resultados bons, tanta gente edificada, pessoas na área de ensino que utilizam com alegria o nosso material. Pais e educadores encontram nos produtos uma alternativa sadia para seus filhos, alunos, crianças que influenciam. É como se o nosso trabalho fosse tijolo e cimento chegando para o mestre de obras, que está fazendo uma casa”, falou.

Márcia, firme no seu chamado “para um agir bendito: abençoar e ser abençoado”, passa seus dias em meio a roteiros, histórias, tiras, texto e arte para gibis, CDs e DVDs. Desafiada a sempre inovar em sua arte, ela inspira-se na vida simples

“Usamos uma fala espiritual, mas também coloquial, a vida cotidiana é por si só uma fonte inesgotável de inspiração. Filhos, amigos, cachorro ou mascote que você tem em sua casa, alegrias, irritações, a dor da perda, surpresas que acontecem conosco todos os dias, medos, o desejo de suprir, salvar, solidarizar… de tudo nasce situações das quais podemos tirar grandes lições de vida”.

Membro da Comunidade de Cristo, em São Paulo, Márcia d´Haese é uma evangelista 24 horas por dia. Seu trabalho, além de envolver sua família, lhe proporciona crescimento espiritual e de todos os envolvidos. “Temos lutas para levar adiante nossa missão. As batalhas espirituais estão aí: vencer a preguiça, a vaidade, a insegurança e os inimigos; substituindo-as por virtudes como perseverança, humildade e confiança no Deus que ama. As batalhas humanas também são muitas, caminhando com Cristo até Cristo, aprendendo sempre a perdoar, cooperar em vez de competir”.

Com disposição e amor pelas pessoas

Há pessoas que nascem com o dom de evangelizar e por isso são privilegiadas. Mas é possível adquirir o dom. Na história bíblica e do Cristianismo há relatos de homens que, ao serem chamados por Deus, expressaram o sentimento de nulidade, mas o Senhor os transformou em mensageiros poderosíssimos.

É o caso do pastor Celso Godoy. Antes no mundo do crime, hoje ele relata em conferências e nos seus dois livros histórias de sua vida. “Uma porta para a vida“, de 1998, já na sua 6ª edição; e “Carandiru, o caldeirão do Diabo”, de 2007, são testemunhos do grande poder de Deus e Seu amor – que dá ao homem a possibilidade de recomeçar a vida, mesmo depois de uma queda, seja ela da magnitude que for.

Há cerca de um ano e meio, ele coordena o projeto de Missões Urbanas da Convenção Batista do Estado, atuando diretamente com excluídos sociais, comunidades carentes, encarcerados e drogados. As ovelhas do pastor Celso são justamente aquelas pelas quais poucos se interessam. “Trabalho também na capacitação de crentes e igrejas para este trabalho específico, e na realização de projetos de impacto sócio-evangelístico em comunidades. Precisamos ter maturidade e consciência da nossa missão para encarar os problemas de ordem social, política, cultural e de cidadania que fazem parte do nosso cotidiano”.

Celso, que também se dedica à música participando dos grupos Sambatista e Frutos, lê até quatros livros ao mesmo tempo e considera-se um homem que busca romper paradigmas. “A igreja moderna continua muito egoísta, com uma pequena visão de Reino, pensando muito mais no bem estar de seus membros do que na salvação de vidas. É claro que progredimos bastante, mas ainda falta muito para entendermos que somos um corpo. A igreja (organização) não é mais importante do que a Igreja (organismo) e quando quebrarmos nossas barreiras denominacionais cresceremos como nunca”.

O pastor e escritor ainda destaca que podemos avançar mais na evangelização e no uso de métodos diferenciados. “Precisamos pensar em métodos que sejam eficazes. O evangelista é um ministro de Deus, capacitado e direcionado por Ele, que utiliza todas as ferramentas possíveis para um melhor desempenho de seu papel.

Muitas das habilidades naturais do indivíduo devem e podem ser utilizadas nessa comissão. Devemos sair de nossos guetos e trabalhar numa visão comunitária. O evangelho não apregoa boas novas somente para depois da morte”, conclui.
Fonte: Revista Comunhão

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